O salto evolutivo da civilização está mais próximo do que nunca, afirma o pesquisador britânico Nafeez Ahmed em estudo recém-publicado na revista Foresight. A conclusão, ancorada em dados energéticos, tecnológicos e socioeconômicos, projeta dois caminhos opostos: abundância sustentável ou recrudescimento autoritário. A qual deles a humanidade irá aderir depende das escolhas coletivas feitas nesta década.
Embora a possibilidade de um futuro positivo inspire esperança, Ahmed alerta que fatores políticos, especialmente movimentos de extrema direita, podem bloquear a transição rumo a sistemas distribuídos de energia, alimentação e informação. Para compreender o dilema, examinamos em profundidade os argumentos, as evidências e as implicações práticas desse cenário.
Quem é Nafeez Ahmed e por que sua voz importa
Formado em relações internacionais e doutor em sistemas complexos, Nafeez Mosaddeq Ahmed ganhou notoriedade por antecipar, com precisão, eventos que moldaram o século XXI. Entre suas previsões mais conhecidas estão a crise financeira global de 2008, a ascensão da energia limpa e o Brexit. Seu método combina análise de sistemas, uso intensivo de dados empíricos e modelagem de dinâmicas socioambientais.
O novo artigo, divulgado pela revista científica Foresight, concentra-se em entender a fase atual do ciclo adaptativo da civilização industrial. Segundo Ahmed, as sociedades humanas evoluem em quatro estágios: crescimento, estabilidade, declínio e transformação. Estamos, de acordo com seus cálculos, na etapa de declínio acelerado que antecede uma reorganização profunda, ou “salto evolutivo da civilização”.
Declínio do modelo industrial: sinais empíricos
Uma das evidências centrais é a queda contínua do Retorno sobre Investimento Energético (Energy Return on Investment – EROI) dos combustíveis fósseis. Em termos práticos, isso significa que se gasta cada vez mais energia para extrair petróleo, gás e carvão, recebendo menos energia líquida em troca. Esse declínio, explica Ahmed, reduz a margem de manobra econômica dos países e aprofunda crises sociais.
Setores-chave afetados
- Energia: complexidade crescente na extração de petróleo em águas ultraprofundas e reservas não convencionais, como o xisto.
- Transporte: encarecimento de combustíveis fósseis impacta tarifas de frete e logística global.
- Alimentos: agricultura industrial depende de fertilizantes derivados do gás natural, cujo preço flutua com a escassez.
- Informação: centros de dados energívoros pressionam a matriz elétrica baseada em termelétricas.
Quando setores fundamentais entram em transição simultânea, o risco de desequilíbrio sistêmico aumenta. Esse é o ponto de inflexão no qual, segundo Ahmed, surgem oportunidades para tecnologias de ruptura — mas também para projetos políticos que buscam preservar estruturas de poder centralizadas.
Janela de oportunidade: convergência tecnológica 2030-2060
Apesar do quadro sombrio, o estudo identifica avanços exponenciais em quatro frentes capazes de redefinir a produção e o consumo globais:
1. Energia distribuída e limpa
Painéis solares com eficiência acima de 30%, turbinas eólicas offshore de grande porte e tecnologias de armazenamento, como baterias de estado sólido e hidrogênio verde, elevam o EROI das fontes renováveis. A tendência aponta para um custo marginal de geração muito próximo de zero em várias regiões até 2040.
2. Agricultura de precisão e proteínas alternativas
Sistemas integrados de sensores, drones e IA otimizam o uso de água e nutrientes. Simultaneamente, carne cultivada em biorreatores e proteínas microbianas demandam menos terra, desmatamento e insumos fósseis.
3. Mobilidade elétrica e autônoma
Veículos autônomos, operando em frotas compartilhadas, prometem reduzir o número total de carros em circulação, diminuindo emissões e congestionamentos. A eletrificação total do transporte terrestre pode cortar 60% da demanda por petróleo.
4. Inteligência artificial generativa
Modelos de linguagem e algoritmos avançados potencializam a descoberta científica, o design de materiais e a gestão de sistemas energéticos, acelerando ciclos de inovação.
Integradas, essas tecnologias formam uma rede de superabundância, termo usado por Ahmed para descrever um sistema econômico no qual bens essenciais — energia, alimentos, transporte e informação — são produzidos com custos residuais, distribuídos de forma descentralizada e geridos cooperativamente.
O papel da política: democracia distribuída versus autoritarismo fossilista
Transformações tecnológicas não ocorrem no vácuo. A história demonstra que inovações podem reforçar estruturas de dominação ou promover redistribuição de poder, dependendo do arcabouço institucional. Ahmed identifica, no atual cenário, duas narrativas antagônicas:
Democracia distribuída
Em consonância com as premissas da internet descentralizada e das redes de energia peer-to-peer, essa visão defende comunidades locais controlando recursos críticos. Políticas públicas estimulam microgeração, agricultura urbana, moedas complementares e dados abertos. O papel do Estado se desloca de controlador para orquestrador de ecossistemas.
Autoritarismo fossilista
Na contramão, governos alinhados a corporações fósseis buscam prolongar subsídios, militarizar fronteiras e centralizar dados. A narrativa de “segurança nacional” justifica vigilância em massa e restrições a movimentos sociais. Caso predomine, o salto evolutivo da civilização pode ser travado, resultando em colapso ecológico combinado com perda de liberdades civis.
Estudo de caso: Estados Unidos na era Trump
O relatório cita a gestão de Donald Trump como exemplo de tentativa deliberada de retardar a transição energética. Entre 2017 e 2020, mais de 125 regulações ambientais foram revogadas ou enfraquecidas, beneficiando a indústria de petróleo e carvão. Simultaneamente, houve cortes no orçamento de pesquisa em fontes renováveis.
Embora o quadro tenha mudado parcialmente sob administrações posteriores, a oscilação demonstra como avanços tecnológicos podem ser neutralizados por ciclos eleitorais, caso não existam salvaguardas institucionais robustas.
Implicações econômicas: do PIB aos indicadores de bem-estar
O salto evolutivo da civilização implica rever métricas clássicas de desenvolvimento. Se energia e alimentos se tornarem quase gratuitos, o Produto Interno Bruto pode encolher, mesmo com aumento do bem-estar. Países que entenderem essa lógica poderão liderar a adoção de indicadores alternativos, como Índice de Progresso Social, Felicidade Interna Bruta e Pegada Ecológica.
Nesse cenário, setores intensivos em capital intelectual — saúde preventiva, educação continuada, artes e cuidado comunitário — ganham protagonismo. A economia se desloca de bens tangíveis para serviços intangíveis capazes de florescer em condição de abundância energética.
Desafios técnicos e éticos da abundância
Superabundância não elimina problemas. Três áreas exigem atenção:
1. Distribuição equitativa
Mesmo com custo marginal zero, a posse de infraestrutura (painéis, baterias, data centers) pode concentrar riqueza. Modelos cooperativos e tarifação progressiva da rede são discutidos como forma de mitigar desigualdades.
Imagem: Jorge MarinCompartilhar
2. Governança de dados
IA e automação demandam grandes volumes de informações pessoais. Leis de proteção de dados, algoritmos auditáveis e direito à explicabilidade tornam-se pilares democráticos.
3. Requalificação profissional
Setores extintos criam desemprego estrutural. Programas de renda básica universal e educação ao longo da vida integram a cesta de políticas recomendadas para evitar exaustão social.
Riscos climáticos: tempo escasso, decisões urgentes
Enquanto oportunidades despontam, o Relatório Síntese do IPCC (2023) indica janela de menos de dez anos para limitar o aquecimento global a 1,5 °C. A divergência entre cronograma científico e ritmo político aumenta a probabilidade de eventos climáticos extremos, que podem ser instrumentalizados por governos autoritários para justificar exceções constitucionais.
Essa correlação sustenta a tese de Ahmed: quanto mais tardia a adoção de tecnologias limpas, maior a instabilidade social e maior o apelo de líderes que prometem “restaurar a ordem” por meio de força estatal.
Cenários prospectivos até 2060
Com base no modelo adaptativo utilizado por Ahmed, três panoramas foram elaborados:
Cenário 1 – Superabundância colaborativa
Governos adotam metas climáticas ambiciosas, triplicam investimentos em P&D verde e criam marcos regulatórios que favorecem cooperativas de energia. Até 2045, 85% da matriz global é renovável, a pobreza energética desaparece e o PIB per capita deixa de ser a métrica principal. Conflitos por recursos caem 60%.
Cenário 2 – Transição desigual
Grandes potências avançam em energia limpa, mas países sem acesso a capital externo ficam presos a combustíveis fósseis baratos. Migrações climáticas se intensificam, gerando tensões geopolíticas. Autoritarismo cresce em regiões afetadas por seca extrema. O salto evolutivo da civilização ocorre, mas de forma fragmentada.
Cenário 3 – Colapso autoritário
Lobby fóssil prolonga subsídios, atraso tecnológico impede descarbonização e emissões ultrapassam 700 ppm de CO₂ até 2050. Eventos climáticos em cascata provocam recessões crônicas. Estados expandem poderes de exceção, restringindo liberdades civis. A erosão institucional culmina em governança de emergência permanente.
O que podemos fazer hoje: ações multilayer
Especialistas em políticas públicas e sustentabilidade sugerem uma abordagem em múltiplas camadas (multilayer) para maximizar as chances do primeiro cenário:
Camada individual
Adoção de energias residenciais, redução do consumo de carne e engajamento em redes de informação confiável.
Camada comunitária
Cooperativas de energia solar, hortas urbanas, moedas locais e participação em conselhos municipais.
Camada nacional
Pressão por políticas de precificação de carbono, subsídios a renováveis e reforma educacional focada em competências verdes.
Camada global
Fortalecimento de acordos multilaterais, como o Acordo de Paris, e ampliação de fundos climáticos para países em desenvolvimento.
Brasil: oportunidade estratégica na transição
Nenhum país reúne tantos ativos naturais e potenciais tecnológicos quanto o Brasil para liderar o salto evolutivo da civilização. Energia hidráulica abundante, capacidade solar e eólica de classe mundial e domínio de biocombustíveis criam base sólida. Desafios persistem, como:
Desmatamento amazônico que compromete serviços ecossistêmicos.
Dependência de combustíveis fósseis no transporte rodoviário.
Desigualdade social que limita acesso à tecnologia limpa.
Programas como o estímulo à microgeração distribuída, o Renovabio e investimentos em P&D de hidrogênio verde posicionam o país no eixo da nova economia. Contudo, retrocessos regulatórios podem minar a confiança de investidores e adiar benefícios sociais.
Conclusão: escolhas que definem o destino coletivo
O debate não é meramente tecnológico, mas civilizatório. O salto evolutivo da civilização delineado por Nafeez Ahmed oferece um mapa de bifurcação: abundância descentralizada ou autoritarismo fossilista. A transição em curso guarda semelhanças históricas com a Revolução Industrial, porém escala global e velocidade exponencial elevam riscos e recompensas sem precedentes.
Se, como sugere o pesquisador, as próximas três décadas concentram o momento crítico de reorganização, as ações tomadas por governos, empresas e cidadãos entre 2025 e 2035 definirão a trajetória. Ainda há tempo para ancorar a mudança em valores democráticos, solidariedade e respeito aos limites planetários. Falhar nesse compromisso significa legar às futuras gerações não apenas um clima hostil, mas também um legado de autoritarismo difícil de reverter.
Enfrentar a encruzilhada requer olhar sistêmico, vontade política e mobilização social inédita. A história está aberta: a escolha entre salto evolutivo e colapso autoritário cabe, agora, a todos nós.
Com informações de Mega Curioso