LG e a era dourada dos smartphones representam um período marcante da tecnologia móvel em que ousadia e criatividade pautavam o ritmo das inovações.
Entre o início e a metade da década de 2010, a fabricante sul-coreana desafiou limites de design, hardware e experiência de uso, tornando-se a principal rival da Samsung no ecossistema Android.
Hoje, dois anos após o encerramento da divisão móvel da companhia, especialistas, consumidores e a própria indústria ainda buscam compreender como um portfólio tão visionário perdeu espaço para soluções mais conservadoras.
O contexto que precedeu a era de ouro
Para entender LG e a era dourada dos smartphones, é fundamental voltar ao fim dos anos 2000, quando iPhone e Android redefiniram o mercado. A Apple inaugurou o conceito de telefone totalmente touchscreen em 2007; um ano depois, o sistema operacional do Google abriu espaço para dezenas de marcas competirem entre si.
Nesse cenário efervescente, fabricantes testavam novos formatos praticamente a cada trimestre: telas com autostereoscopia, câmeras infravermelho, projetores embutidos e teclados físicos que deslizavam. Era um vale-tudo criativo impulsionado por margens ainda generosas e pela curiosidade do consumidor.
A LG, gigante multissetorial com experiência em painéis, semicondutores e eletrodomésticos, decidiu capitalizar o momento. Em vez de apenas seguir tendências, adotou uma postura agressiva de P&D, investindo em patentes e linhas-piloto de produção capazes de entregar ideias que pareciam ficção científica.
Modelos que desafiaram o status quo
O portfólio da companhia entre 2010 e 2020 se tornou um verdadeiro catálogo de experimentos de grande escala. Alguns fracassaram comercialmente; outros inspiraram conceitos que permanecem vivos. Confira os principais:
Optimus 3D: a primeira aventura tridimensional
Lançado em 2011, o Optimus 3D propunha imagens com profundidade sem a necessidade de óculos. A tecnologia, chamada de parallax barrier, exigia que o usuário posicionasse o aparelho em um ângulo específico, mas gerava um efeito surpreendente para a época. Um sistema de duas câmeras traseiras capturava fotos em perspectivas levemente distintas, unindo-as em arquivos tridimensionais. A falta de conteúdo nativo, entretanto, limitou a vida útil do projeto.
DoublePlay: teclado dividido, tela dobrada
No mesmo ano, a LG apresentou o DoublePlay, híbrido de smartphone e minitablet com dois displays. O painel secundário, posicionado entre as metades do teclado físico, funcionava como atalho para aplicativos ou área de edição de texto. A solução tentou reconciliar produtividade com portabilidade, algo que influenciaria experimentos posteriores com telas adicionais.
G Flex: curvas, flexibilidade e material “autorreparável”
O G Flex, de 2013, foi um divisor de águas ao ostentar display OLED curvo de 6 polegadas. A curvatura não apenas absorvia melhor choques, como também melhorava a ergonomia no rosto durante chamadas. O corpo podia ser suavemente pressionado sem quebrar o painel — demonstração pública do domínio da LG sobre substratos plásticos flexíveis. Além disso, a tampa traseira utilizava polímero que preenchia riscos leves em poucas horas, recurso inédito no mercado.
V10 e a tela secundária persistente
Em 2015, o V10 inaugurou a família focada em entusiastas multimídia. Acima do display principal havia um minipainel de 2,1 polegadas usado como barra de atalhos, notificações e controles de mídia. Era uma forma elegante de aumentar a área útil sem sacrificar componentes internos. O público-alvo incluía criadores de conteúdo, atraídos pela gravação manual de vídeo em 4K e microfones de alta fidelidade.
G5: a utopia do smartphone modular
O G5 (2016) talvez sintetize melhor a ambição da LG. Com estrutura metálica, o aparelho permitia remover o “queixo” inferior para acoplar módulos: bateria adicional, DAC Hi-Fi para áudio premium ou grip fotográfico. Embora elogiada, a implementação demandava desligar o dispositivo para a troca, o que esfriou a receptividade do consumidor comum e elevou custos de logística.
G8 ThinQ: gestos aéreos e biometria vascular
Três anos depois, o G8 ThinQ levou sensores ToF (Time of Flight) à parte frontal, possibilitando controle por gestos sem toque e um método de desbloqueio que escaneava o padrão de veias da palma. A ideia era oferecer interação higienizada — irônico, considerando que meses depois o mundo enfrentaria uma pandemia. Apesar da precisão surpreendente, o recurso carecia de apps otimizados, tornando-se mais curiosidade que utilidade.
V50 ThinQ Dual Screen: dobrar sem dobrar
Quando os primeiros aparelhos flexíveis chegaram às prateleiras em 2019, a LG apostou em caminho alternativo: uma capinha com segunda tela idêntica à principal, conectada por pinos POGO. O setup imitava multitarefa de um celular dobrável, mas sem o preço elevado nem o risco de quebra do vinco. Usuários podiam assistir a vídeos e, simultaneamente, navegar nas redes sociais, algo que ganhou popularidade em transmissões de e-sports.
Wing: o canto do cisne de duas metades
O grand finale veio em 2020, com o LG Wing. A tela girava 90 graus na horizontal, revelando painel secundário em formato de T. A proposta era liberar o display principal para consumo de mídia enquanto o inferior recebia comandos ou exibia outro app. Sistemas de gimbal, integração com GPS automotivo e captura de vídeo em modo paisagem foram destacados no marketing. Ainda assim, o alto preço e o peso extra limitaram adoção.
Por que tanta ousadia era possível?
Desenvolver conceitos além do senso comum demanda capital, expertise fabril e coragem para absorver prejuízos em caso de fracasso. Poucas empresas reuniam esses três pontos. A LG possuía:
1. Integração vertical: produção própria de displays OLED, memoria RAM e módulos de câmera reduzia dependência de fornecedores terceirizados, facilitando mudanças radicais de design.
2. Diversificação de receita: divisões de televisores, condicionadores de ar, painéis solares e eletrodomésticos amorteciam eventuais perdas da área móvel.
3. Parcerias estratégicas: acordos com operadoras estadunidenses garantiam volume mínimo, condição vital para diluir custos incipientes de linhas experimentais.
O duelo silencioso com a Samsung
Em 2014, pesquisa da Comscore apontava 8% de participação da LG no mercado total de smartphones dos Estados Unidos, contra 29,7% da Samsung. Ao remover o iPhone da equação, 13,7% dos aparelhos Android no país levavam o logotipo “Life’s Good”. Traduzido em números absolutos, eram mais de 14 milhões de unidades ativas.
A rivalidade não ficava apenas nas prateleiras. Ambas empresas disputavam quem lançava primeiro determinados recursos: HDR em vídeo, foco a laser, baterias removíveis de alta capacidade, DACs de 32 bits, certificação militar de resistência. Em diversos ciclos, a LG saía na frente tecnicamente, mas tropeçava em marketing ou timing de mercado, enquanto a Samsung capitalizava versões refinadas meses depois.
O peso financeiro da criatividade
Se inovação traz visibilidade, também adiciona complexidade logística. Linhas de montagem precisam ser adaptadas; manuais de reparo e treinamento de assistência técnica, atualizados; campanhas de publicidade, redobradas para explicar o “pulo do gato” ao consumidor.
Imagem: Lucas Gouveia
Com o passar dos anos, o tíquete médio dos smartphones subiu, porém o custo de P&D acompanhado de baixos volumes marginava cada projeto. Quando o setor migrou para designs em vidro e metal mais homogêneos, o público passou a valorizar câmeras, bateria e software estável acima de truques de hardware. A LG insistiu na diferenciação física, mas perdeu terreno em fotografia computacional e políticas de atualização — áreas onde Apple, Google e Samsung investiam pesado.
Consequências internas e decisão de saída
Relatórios financeiros mostravam a divisão móvel acumulando prejuízos desde 2015. Em 2020, mesmo com leve crescimento de receita no restante do conglomerado, a área de smartphones registrava déficit superior a US$ 750 milhões. A pandemia, ao encarecer componentes e reduzir consumo, tornou o cenário ainda mais delicado.
Em abril de 2021, o conselho da LG Electronics anunciou o encerramento global da unidade de telefonia. A empresa afirmou que redirecionaria esforços para IoT, inteligência artificial e soluções automotivas — mercados em expansão com margens melhores.
O legado de LG e a era dourada dos smartphones
Encerrar operações não apaga contribuições deixadas para o ecossistema Android. A seguir, alguns legados concretos:
Tecnologia de telas flexíveis: o know-how adquirido no G Flex serviu como base para painéis OLED curvos presentes em TVs premium e displays automotivos.
Áudio de alta fidelidade: DACs Quad 24-bit usados em linhas V e G influenciaram marcas como ASUS e vivo a incorporar soluções equivalentes.
Módulos de câmera ultrawide: popularizados no LG G5 e mantidos em gerações posteriores, tornaram-se padrão em flagships de diferentes fabricantes.
Botões traseiros e ergonomia: a ideia de reposicionar teclas físicas ampliou o debate sobre usabilidade em telas grandes, impactando projetos futuros.
Projetos de software para multitarefa: o conceito de janelas flutuantes e tela secundária inspirou adaptações nativas do Android, como o modo picture-in-picture.
Lições para o mercado contemporâneo
Os fracassos da LG oferecem aprendizados relevantes:
1. Inovação precisa de ecossistema: o Optimus 3D morreu por falta de conteúdo. Toda novidade deve vir acompanhada de serviços ou parcerias que a sustentem.
2. Modularidade requer padronização: sem apoio de terceiros, o G5 tornou-se inviável. Iniciativas atuais, como acessórios MagSafe, mostram que agregar módulos só funciona quando múltiplos players participam.
3. Marketing é tão vital quanto tecnologia: diversos consumidores desconheciam recursos singulares dos aparelhos LG. Investir em comunicação clara pode ser a diferença entre nicho e mainstream.
Estamos vivendo uma nova era de ousadia?
Hoje, dobráveis, enroláveis e telefones gamers retomam parte da vibração criativa do passado. No entanto, nenhum player investe tantos formatos diferentes no intervalo de uma década como fez a LG. Samsung, Huawei e Motorola concentram apostas em duas ou três famílias dobráveis; fabricantes menores preferem edições especiais em lote limitado.
Com a maturidade do mercado, riscos aumentam: o ciclo de upgrade se alonga, e regulamentações ambientais pressionam empresas a pensar em reparabilidade. Inovação, portanto, tende a ser mais incremental que disruptiva. Ainda assim, rumores sobre painéis tri-fold, smartphones transparentes e câmeras invisíveis mostram que a semente plantada pela LG continua germinando.
O futuro além dos smartphones
A própria LG direcionou sua expertise em displays e baterias para setores promissores. Em veículos elétricos, fornece sistemas de infoentretenimento curvos de 34 polegadas. Em casas inteligentes, desenvolve geladeiras com transparência OLED que se opacificam ao toque. Parte da equipe de engenharia mobile foi realocada nessas iniciativas, provando que know-how conquistado não se perde, apenas migra.
Conclusão
LG e a era dourada dos smartphones ilustram um momento em que a indústria de telefonia não temia errar. A ousadia de colocar duas telas, curvar baterias ou curar riscos soava extravagante, mas alimentava a imaginação coletiva sobre o que um telefone poderia ser.
Ao deixar o segmento, a LG encerrou uma fonte de concorrência que estimulava rivais a pensar fora do quadrado. No entanto, o legado de busca incessante por diferenciação permanece vivo em laboratórios ao redor do mundo. Cabe às empresas atuais equilibrar audácia e viabilidade econômica para que os próximos dez anos sejam tão empolgantes quanto a década que a LG ajudou a escrever.
No fim das contas, reinventar o smartphone significa arriscar-se a fracassar publicamente. A LG provou que, por vezes, vale a pena — mesmo que o resultado não seja mensurável em unidades vendidas, mas em inspiração para o futuro.
Com informações de How-To Geek